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Christof Wiechert recebe brasileiros no Goetheanum 

Pela primeira vez, formandos do Centro de Formação de Professores Waldorf, da E.W. Rudolf Steiner, estiveram juntos em Dornach para conhecer o Goetheanum. A viagem aconteceu em janeiro desse ano e fez parte de uma programação cultural de 10 dias  idealizada pelos professores Luzius Zaeslin  e Luiza Lameirão, que se estendeu também às cidades de Basel, Colmar, Paris e Chartres.

           Ao saber da visita, Christof Wiechert , chefe da Seção Pedagógica do Goetheanum, convidou a todos para uma conversa. Na tarde do dia 18 de janeiro, quando os jardins do Goetheanum ainda estavam pipocados de neve pelos cantos, Wiechert  recebeu cordialmente o grupo. Detalhou o atual panorama mundial da Pedagogia Waldorf, respondeu perguntas e também comentou os temas sobre os quais vem realizando suas pesquisas.

Atualmente, existem cerca de 1100 Escolas Waldorf e 1800 Jardins Waldorf no mundo. O movimento da Pedagogia Waldorf é ascendente na América Latina, especialmente no Brasil e na Argentina. No Canadá, a situação é estável. 

Surpreendentemente, em Taiwan pode-se constatar evolução, com a existência de quatro grandes escolas. Outro país que aponta crescimento é Israel, com sete Jardins e 11 Escolas, sendo que três delas oferecem o curso colegial.  “Um crescimento admirável para um país que vive em guerra”, considera Wiechert. 

Na Europa Ocidental, o número de escolas cresce na Espanha, ao contrário do que ocorre em Portugal. “Não conseguimos ainda avaliar o motivo dessa retração. Poderíamos pensar que isso se dá pelo fato de Portugal ser um país fortemente católico, porém, se pensarmos na Itália, igualmente católica, veremos que isso não se justifica, uma vez que o movimento neste país é crescente”. Na Alemanha, a Pedagogia continua crescendo, com mais de 200 escolas e, no momento, cada grande cidade alemã tem uma Escola Waldorf. 

Nos países da antiga Cortina de Ferro, os movimentos da Pedagogia trazem características diversas. Na Chechênia e na Hungria a situação é estável; já na Romênia e Rússia ­– país que chegou a ter 40 escolas ­– verifica-se uma retração. “Lá, perdemos para a pobreza e burocracia”, explica Wiechert.

Um dos questionamentos do grupo visitante tratou das relações entre o poder público e as Escolas Waldorf. Wiechert informou que em países como a Alemanha, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia o Estado subsidia as escolas. Entretanto,  esse subsídio muitas vezes é sinônimo de ingerência do Estado. “Pode-se dizer que nesse aspecto temos uma polaridade bem estabelecida entre Alemanha e Holanda”, explica Wiechert. Na Alemanha, as escolas são apoiadas pelo estado e tem total liberdade. A situação na Holanda é completamente inversa, com imensa influência do estado nas diretrizes da escola, a ponto de criar sérias distorções.

Na Suiça, as Escolas Waldorf não recebem ajuda governamental, “mas os suiços sabem lidar com dinheiro, e as escolas são ricas”, brinca. Essa facilidade econômica acontece em cidades como Berna e Zurique. Porém, em cidades menores,  enquanto as escolas se mantêm pequenas, trabalham sempre no limite do razoável; precisam crescer para  atingir a estabilidade financeira.  Segundo Wiechert, as leis da União Européia ditam a pluralidade metodológica das escolas, o que implica no recebimento de recursos financeiros independentemente do método pedagógico ministrado.  A reivindicação que se faz é no sentido de que as Escolas Waldorf também sejam inseridas nesse contexto de pluralidade. O ideal é o de que as escolas recebam verbas estatais, mas que sejam respeitadas em suas regras  internas.

Outra pergunta feita pelo grupo brasileiro e que tem sido alvo de acaloradas discussões tratou da permanência do professor por oito anos com uma turma de alunos. Embora esse aspecto da Pedagogia seja justamente um dos seus principais pilares, e é recomendação tácita de Rudolf Steiner, na prática tem sido cada vez mais difícil um professor ter fôlego para essa empreitada. Para esses casos, preconiza-se a mudança do professor a partir do 6º ano: “É preferível a mudança de professor a partir do 6º ano do que a permanência de um que acabe quebrando os vidros!”, diz. Para que se tome tal decisão e para que a transição se dê de maneira apropriada, deve haver a ação de um colegiado de professores com bastante jogo de cintura e qualidade nas relações, inclusive com os pais. Wiechert ressalta, entretanto, que uma mudança de professor antes do 6º ano é um “ataque”. 

Para Wiechert, essa incapacidade atual do professor ocorre, em geral, porque “a formação é fraca, a maioria não teve uma educação horizontal”. Para além da questão do conhecimento que o professor deve ter, as alterações anímicas importantes que ocorrem nas crianças a partir do 4º e 5º anos exigem também mudanças no professor. “A possibilidade ou não de mudar, de evoluir junto com os alunos tem a ver com a saúde, com o  tanto de energia que os professores aplicam em suas atividades. Atualmente, os corpos etéricos se tornaram rígidos, provavelmente porque esses professores não desenvolveram  nada artístico em suas juventudes”.  Para além da questão da saúde do professor, tal situação deve ser pensada também a partir da responsabilidade do professor em promover o desenvolvimento, em seus alunos, da capacidade de resiliência para as futuras crises da vida. Preocupação, aliás, que permeia todo o currículo da Pedagogia Waldorf.

Wiechert relatou também os assuntos que vem gerando suas pesquisas junto à Seção Pedagógica do Goetheanum. A  trimembração da aula principal é um deles e, segundo ele,  sua pesquisa “trará reações”.  “Um tempo atrás tive a sensação de que dividir a aula principal em três partes não tinha base verdadeira. E, na verdade, por parte de Rudolf Steiner não há nada que aponte para essa divisão; eu a considero anti-artística”. Ele pretende terminar em breve essa pesquisa e promete divulgar amplamente suas conclusões.

A observação de crianças, tema que é profundamente abordado por Luiza Lameirão em suas aulas no Centro de Formação, foi apontada por Wiechert como essencial: “E não basta observar, é preciso que surjam as soluções. O professor deveria ele mesmo observar seus alunos e buscar as soluções, e não recorrer aos especialistas para tudo”.

As profissões, conteúdo curricular do 3º ano, gerou apontamentos. Para Wiechert, os professores primam mais pela construção das casas – geralmente uma atividade coletiva realizada no pátio da escola, ou construções de miniaturas, realizada pelas crianças com a ajuda dos pais ­– do que para os conteúdos que essa atividade deve gerar: “Steiner diz que as crianças devem conhecer as profissões primordiais ou as profissões características da região onde moram e esse deve ser o objetivo principal do professor, e não necessariamente a construção da casa”.

Por fim, Wiechert aponta o ensino das línguas estrangeiras como mais um tema a ser discutido e pesquisado. A recomendação geral é a de que a língua estrangeira seja ensinada até o 8º ano e cultivada nos anos posteriores. “Queremos saber o que tem sido feito até agora e, se o sistema não é eficiente, como fazer para torná-lo melhor”.

 Sandra Seabra Moreira , jornalista, participante do encontro como aluna do Centro de Formação de Professores Waldorf.

 

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