home  local  mail
Trabalhar e estudar no século 21

Resultados de um projeto de pesquisa

O grupo principal deste projeto (Dr. Michael Brater, Rüdiger Iwan, Martyn Rawson, Mathias Riepe e Thomas Stöckli) debruçou-se durante três anos sobre a questão de como a pedagogia e em especial a pedagogia Waldorf pode enfrentar ativamente as transformações do mundo do trabalho – com base em uma compreensão ainda mais profunda da criança e da ciência espiritual antroposófica. As diversas experiências feitas pelos membros do grupo principal em seus campos de atuação pedagógica e profissional e as conclusões obtidas por meio de seus trabalhos teóricos foram reunidas nas reuniões de trabalho, sendo em seguida testadas de forma decentralizada, no local, e posteriormente desenvolvidas. Esse método de trabalho orientou-se, em sua maior parte, pela pesquisa na prática, que pode ser útil para o desenvolvimento de projetos por incluí-los na pesquisa. O mesmo também foi tentado por ocasião de três simpósios, onde se encontraram titulares ativos do projeto e fomentadores oriundos da Alemanha, Suíça, Inglaterra, Áustria, Checoslováquia e França.

Gostaríamos de aproveitar essa oportunidade para agradecer a todos os participantes do projeto, em especial à seção pedagógica da Universidade Livre do Goetheanum. O verdadeiro iniciador do projeto foi Jon McAlice, então atuante como funcionário em Dornach no âmbito da seção pedagógica. Na fase final do projeto, tivemos a oportunidade de manter debates importantes com o novo diretor de seção Christof Wiechert, que fomentou nosso trabalho por meio de crítica e indicações construtivas.

A seguir, desejamos apresentar aos leitores da carta circular as recomendações mais importantes obtidas por meio do nosso trabalho como base de discussão e esperamos que isso promova a troca frutífera de idéias entre colegas.

Thomas Stöckli

I. Conclusões Gerais

O mundo em transformação

O mundo está se transformando em todos os níveis e em velocidade cada vez maior. A marca da nossa era é a necessidade que temos de chegar a uma nova consciência. As sensíveis transformações no mundo do trabalho não só espelham os desenvolvimentos econômicos, mas também os importantes processos de evolução nas áreas social, cultural e espiritual. Rudolf Steiner também descreve o caráter espiritual do nosso tempo como “era da alma consciente”1. Esta se mostra por meio de uma individualização cada vez maior, de uma tendência de dilaceração das forças da alma. Pensar, sentir e querer e o aumento das experiências (muitas vezes não preparadas) espirituais diretas. Resumindo: uma nova consciência e a transformação do meio ambiente espiritual influenciam e levam adiante todas as transformações sociais e econômicas.

A educação faz parte do ambiente cultural e por isso está mais profundamente sujeita à transformação do espírito da nossa era. A prática da educação, porém, tem uma longa tradição de se isolar das transformações que ocorrem nas áreas social cultural e econômica. Como enfatizamos nos nossos relatórios de pesquisa, ela sempre se ateve mais aos conteúdos do passado do que às imagens do futuro.2 Há séculos tenta-se trazer a imagem da “vida real” para as salas de aula, mas isso acontece mais como reação à pressão sofrida por transformações sociais e não como fator de inovação ativo determinante. A educação em seu amplo e verdadeiro sentido como almejado pela pedagogia Waldorf tem a ver com o potencial que dormita na geração mais nova de crianças e é ele que representa o futuro da nossa sociedade. Participar proativamente das transformações globais, que também incluem o mundo do trabalho, tem de ter conseqüências para toda a educação, inclusive para a pedagogia Waldorf. Isso não quer dizer que basta simplesmente ajustar o programa de estudos a quaisquer exigências externas econômicas ou públicas. A educação tem que mudar porque, como todas as demais transformações, ela faz parte da renovação cultural como um todo! As atuais circunstâncias nos desafiam a repensar e renovar todo o nosso conceito pedagógico.3

Conceitos ampliados de estudo e trabalho

Nossas averiguações mostraram que temos de ampliar nossos conceitos de estudo e trabalho. O que significa trabalho para nós? Trabalho no sentido mais amplo significa toda e qualquer ocupação prática a serviço do outro que faça sentido no mundo. Obviamente isso não exclui trabalhar para e em si. De forma geral, podemos compreender trabalho como tal sempre que o ser humano também tenta superar desafios.

Isso diz respeito tanto à atividade física como à espiritual. Ou seja, o trabalho também é transformação. Usamos a terminologia trabalho no sentido de abranger e incluir todas as atividades a serviço do próximo. De que forma, portanto, trabalho e estudo estão interligados? Quando trabalhamos,

temos a possibilidade de aprender. Por isso, trabalhar e estudar têm relação entre si, no sentido de que sempre temos que trabalhar para aprender. E quando aprendemos, mudamos tanto a nós mesmos como o mundo. O movimento importante e objetivo é uma forma de trabalho e o movimento é a semente de todo aprendizado. Uma das tarefas centrais da educação é o desenvolvimento constante dos elementos básicos do aprendizado, que nos levam a “trabalhar aprendendo e aprender trabalhando” (aprofundamos essa parte na nossa pesquisa). A importância do trabalho para o desenvolvimento normal do ser humano requer uma compreensão profunda e é essencial à formação de professores.

Edu cação proativa

A escola tem de se tornar mais proativa para ajudar o indivíduo a desenvolver plenamente seu potencial. Historicamente, a escola sempre reagiu (normalmente a desafios externos). Por isso, em muitos casos a educação tem de reagir a problemas surgidos em decorrência de mudanças sociais e combater racismo, deterioração social, condições de trabalho alteradas, desemprego em massa, violência, consumismo, destruição ambiental, deterioração urbana etc.. No entanto, a educação deveria tratar proativamente a capacidade e competência necessárias a serem exigidas das pessoas responsáveis e criativas da sociedade no futuro. E isso só poderá acontecer em liberdade, quando o currículo e os métodos de ensino virem ao encontro do potencial de desenvolvimento das pessoas que crescem no mundo atual.

A comunidade de estudo como um todo

A tarefa de educar passará a ser cada vez mais a tarefa de uma comunidade que engloba pais, professores, alunos e as pessoas que exercem atividade profissional. Aprendizado durante toda a vida pressupõe que todas as instituições se transformem em organizações de aprendizado.

Diversidade no procedimento e na realização

Nossa época e o desenvolvimento dos indivíduos clamam por diversidade de princípios e nas formas pedagógicas. Veremos diversas possibilidades de adaptação à educação, inclusive à pedagogia Waldorf. Por isso não existe apenas um único modelo de pedagogia Waldorf. Temos que criar várias novas formas de aprendizado.

Identificar as necessidades das crianças

As formas e os métodos da pedagogia Waldorf são totalmente voltados para a natureza das crianças e jovens e para suas necessidades e têm de levar em conta que elas também se transformam. Se, como professores, observarmos o desenvolvimento das crianças, percebermos quais aptidões e interesses elas trazem consigo e aprendermos a interpretar suas necessidades interiores e a entender suas perguntas não ditas, não somente estaremos aptos a ajudá-las, como encontraremos o caminho para chegar às condições espirituais que regem nossa era atual.

Um número crescente de colegas relata que escolas convencionais, inclusive as escolas Waldorf, não mais atendem as necessidades de um número cada vez maior de

Crianças 4. Se isso é devido à pressão externa e a influências na infãncia, ou se as crianças nascem com disposições espirituais e expectativas totalmente novas (as assim chamadas crianças indigo ou estrela), não está indubitavelmente claro. Certo, porém, é que agora podemos observar diversas diferenças na conduta de aprendizado entre as crianças, assim como crianças com maneiras diferentes de perceber o mundo (inclusive crianças disléxicas). É necessário aprofundar as pequisas nesse campo para fazer jus às necessidades das crianças nas escolas modernas.

Interpretar e entender o mundo

Como o próprio Steiner afirmava bem no começo da pedagogia Waldorf, professores têm de “ter um interesse vivo em tudo o que acontece hoje em dia, senão serão maus professores”5. Isso inclui a percepção das mudanças no mundo do trabalho e a procura pela identificação das respectivas conseqüências para a educação.

Educar para desenvover aptidões

As mudanças que observamos enfatizam a intenção original de Rudolf Steiner de que a pedagogia Waldorf deve permitir às crianças desenvolver as aptidões necessárias para suas vidas e também no mundo do trabalho.6 Isso mostra a necessidade de definir novamente, em intervalos regulares, as aptidões necessárias ao ser humano hoje e no futuro.

Uma das aptidões-chave da atualidade é a de aprender a estudar:

  • Apesar de o currículo Waldorf perseguir o objetivo de desenvolver aptidões desde o começo, existem várias áreas na educação que devem ser revistas sob o aspecto das diversas mudanças ocorridas.

As duas aptidões centrais da nossa época atual são:

  • a aptidão de aprender a estudar e continuar apto a aprender durante toda a vida (“aprender durante toda a vida”)
  • a aptidão de agir produtivamente e de acordo com a situação, ou seja, de ser criativo.

A criatividade é um processo essencialmente artístico, mas não está limitado a aptidões artísticas. A criatividade também é essencial na área social e no mundo do trabalho. Agir com criatividade significa agir sem que a ação tenha sido ensaiada ou estudada, ou seja, agir produtivamente e não simplesmente de acordo com um plano. Agir com criatividade significa usar o que se tem à mão e transformar as circunstãncias de tal forma a revelar novas possibilidades. Criatividade tem a ver com improvisação, mas, para tornar-se eficaz, ela precisa de um leque de aptidões que podem ser aprendidas.

Estudo do aprendizado

Como a aptidão de aprender durante toda a vida é tão importante, temos que dar ênfase ainda maior ao estudo do próprio processo de aprendizado. Temos que ter uma compreensão melhor do processo de aprendizado como um todo e principalmente de como ele se transforma de acordo com as várias faixas etárias dos alunos. A pedagogia Waldorf, portanto, tem de desenvolver uma atenção maior para as necessidades atuais dos alunos, ou seja, ser mais voltada ao aluno. Isso significa uma mudança de prioridades, afastando-se do planejamento de aulas e horário de aulas e aproximando-se dos métodos e de como as diversas matérias e métodos tornam os alunos aptos a aprender. O que exige de nós, a curto e a longo prazo, focar a possibilidade de avaliação das experiências-chave dos alunos.

Um aspecto decisivo de todo o processo de aprendizado é a avaliação e auto-avaliação tanto dos alunos como dos professores.

Pesquisa

Os métodos de pesquisa antroposóficos têm de estar totalmente imbuídos de técnicas de pesquisa empíricas, baseadas na observação. Essa pesquisa será prática ao invés de teórica e será feita longe da sala de aula. A pedagogia Waldorf tem que observar a tendência de tratar as dimensões cósmicas da pesquisa do desenvolvimento humano em geral de forma muito teórica e enfática no sentido de contrabalançar essa tendência fortalecendo suficientemente a forma de pesquisa, até mais simples, feita com base na observação.e na prática.

Pesquisa prática

Em uma cultura de reuniões em escolas e institutos de ensino, a pesquisa prática tem de ser parte integrante e de desenvolvimento contínuo da educação.

O trabalho humanitário fundamentado torna-se eficaz nas aulas por meio da pesquisa prática.

A pesquisa prática é essencial tanto como caminho metódico para o professor quanto como tarefa comunitária para um trabalho de conferência.

Aprender por meio de ação, estudo e prática

Aprender por meio da prática tem de ser valorizado em todas as áreas da educação. Sempre que possível, os diversos materiais devem ser obtidos no local e integrados ao horário de aulas (como, por exemplo, usar lã própria para fiar, tingir e tecer; barro próprio para modelar; cortar a própria madeira para utilizá-la em atividades escolares). Isso requer programas escolares integrais, onde alunos de todas as classes trabalham juntos em um mesmo horário de aulas (p.ex., os alunos mais velhos preparam os materiais que serão usados pelos mais novos). Essa idéia pioneira foi utilizada pela primeira vez na Grã-Bretanha por Hiram Trust.

A importância do aprendizado por meio de situações reais e condizentes com a idade é decorrente dessa prática. O aprendizado por meio de questões e tarefas reais, onde as crianças estão ativamente conectadas ao mundo, é o mais efetivo de todos.

As crianças deveriam ser encorajadas a desenvolver suas próprias atividades direcionadas por elas. Isso exigiria novas formas de aprendizado e novas formas escolares. A vontade própria de muitas crianças está fragilizada em decorrência da vida moderna e tem de ser fortalecida e recuperada por meio da auto-ocupação, porém com acompanhamento. Quanto mais crianças e jovens tomarem a iniciativa de aprender, tanto maior será seu engajamento e, portanto, seu potencial de estudos.

Novos papéis para professores

Quando se estende o campo de estudos para além da tradicional sala de aula, isso exige novas habilidades dos professores. O professor tem de tornar o mundo do trabalho e outros campos de aprendizado acessíveis às crianças e ajudar os jovens a refletir sobre suas experiências, assimilá-las e integrá-las à sua vida.

No segundo setênio, a autoridade do professor se mantém como princípio básico, pois nessa faixa etária o papel do professor exige retirar a essência da matéria a ser estudada e transmiti-la de forma a que as forças espirituais da criança participem do processo.

A tarefa do professor consiste em tirar a criança do arquétipo, levá-la à relidade moderna e levá-la de volta (o que não significa propagar exemplos históricos antiquados). Não faz sentido a criança ficar presa à imagem original e não ter como compreender o mundo moderno. Ao mesmo tempo, o simples confronto com o mundo moderno sem dispor de imagens arquetípicas dá pouco espaço ao desenvolvimento.

Principalmente os professores do ensino médio precisam de novas aptidões para terem condições de acompanhar as novas situações fora das aulas normais.

Novas aptidões – Trabalho em equipe

Além disso, o aprendizado por meio do trabalho em equipe e do diálogo entre todos os participantes da comunidade, inclusive professores, alunos, pais, acompanhantes e outros tornou-se indispensável. Para que o mundo do trabalho se torne um campo de aprendizado eficiente para os alunos, esse ambiente tem de ser acompanhado pelos educadores. Nesse sentido, o trabalho em equipe é uma habilidade necessária aos professores para que eles mesmos encontrem e vivenciem essa referência.

Além disso, o professor somente poderá construir as novas formas de ensino (mesmo sendo o professor de classe) das quais as crianças precisam por meio do trabalho em equipe. Pois atualmente as necessidades de aprender diferem tanto de uma criança para outra que é necessário desenvolver inúmeros métodos.

A capacidade das crianças de prestar atenção mudou. Por isso, hoje em dia fazem-se necessários outros estilos de contar histórias, sensibilidade temporal, flexibilidade e também novos ritmos nas aulas, além de habilidades exigidas pelo estudo em forma de representação artística.

Estruturação trifásica

Para levar adiante o desenvolvimento curricular e as estruturas orgaizacionais escolares, faz-se necessário ter consciência do conceito de Rudolf Steiner sobre uma ordem social trifásica.

Formação dos professores

A maioria dessas sugestões têm grande influência sobre formas e conteúdos da formação de professores e seu aperfeiçoamento contínuo. As novas áreas de formação incluem:

  • Pesquisa e vivência das atuais circunstâncias sociais, culturais e econômicas e suas conseqüências para a educação.
  • Cultivo das aptidões sociais, pessoais e profissionais.
  • Pesquisa do processo de aprendizado diante da questão sobre o quanto uma avaliação pode contribuir para o processo de aprendizado.
  • Exame e aplicação dos métodos de pesquisa prática.
  • Pesquisa do desenvolvimento de novas habiliddes de ensino, o que também inclui questões sobre como colocá-las em prática.

II. Recomendações especiais para o jardim de infância e ensino fundamental (classes 1 – 8)

Jardim de infãncia

A transição do jardim de infãncia para a primeira série deveria ser protegida de uma antecipação da maturidade escolar ou de aulas formais no primeiro setênio. Crianças precisam de sete anos para obter uma base a mais saudável possível para seu posterior desenvolvimento físico, emocional e moral, em outras palavras, para que formem uma base de desenvolvimento saudável para toda a vida.

Isso também significa que a atenção dada às crianças na pré-escola tem de considerar suas necessidades de desenvolvimento tendo em vista sua faixa etária. Isso poderia incluir mudanças no jardim de infância que permitam a integração das necessidades das crianças. Teremos que descobrir formas de realizar essas mudanças.

Algumas iniciativas parecem especialmente frutíferas. Crianças precisam de uma união maior com a natureza e de muitas atividades práticas que tenham a ver com trabalhos na natureza ao seu redor. Jardins de infância não só precisam de jardins de verdade como até de verdadeiras fazendinhas infantis. Crianças pequenas também deveriam ter a possibilidade de vivenciar ofícios como, por exemplo, os de ferreiro, cesteiro, oleiro ou tecelão.

A transição para a escola

O poder da desintegração social e a pressão exercida na primeira infância fazem com que muitas crianças, senão todas, sejam obrigadas a desenvolver partes de sua individualidade precocemente. Muitas vezes o desenvolvimento individual e cognitivo é promovido ao mesmo tempo em que a forma de vida moderna fragiliza o desenvolvimento da vontade própria. Isso dificulta a integração social, porque há muitas diferenças individuais entre as necessidades de estudo. Isso também significa que a tarefa do professor de classe nas classes inferiores está se tornando cada vez mais difícil. As crianças que têm as maiores dificuldades de aprender a estudar em grupo tornam-se um fardo para as outras, que então mais cedo ou mais tarde também acabam perdendo sua própria motivação e paciência. Diferenças de aprendizado específicas em crianças têm de ser diagnosticadas o mais cedo possível por meio de observação dos alunos e acompanhamento individual.

Um peso maior tem de ser dado ao desenvolvimento das habilidades sociais na faixa etária do jardim de infância, principalmente no último terço dos primeiros sete anos. Atenção social tem de ser adquirida por meio de imitação em nível corporal, além de ajuda, compartilhamento e assistência, pois isso cria uma base para o desenvolvimento da consciência social e posterior competência.

Ensino fundamental

Os professores têm de desenvolver métodos de ensino mais eficientes para atender as inúmeras necessidades em classes grandes. Isso poderia incluir a colaboração de um ajudante de classe, de estagiários, diferenciação mais efetiva e diversas outras soluções. Faz parte da ética Waldorf não somente acolher todas as crianças como ser capaz de fazer tudo o que for possível para atender suas necessidades. Ao menos isto deveria ser uma meta a ser atingida.

Aprender fazendo

É preciso tentar cada vez mais fortalecer o aprendizado no ensino fundamental por meio da ação. Isso inclui métodos na sala de aula, como, por exemplo, repetições na prática, técnica promovida durante anos por Els Göttgens (consultor escolar holandês), onde as crianças usam materiais simples para produzir algo que resuma a lição aprendida em aula como complemento ao resumo verbal. Outros métodos incluem aulas ao ar livre, utilização dos meios naturais locais para exercer atividades importantes (como, p.ex., barro, vime, lã, cores de plantas etc. a serem colhidos ou cultivados no local). Incluir o maior número possível de atividades baseadas na ação no horário de aulas pode ser econômico, mas exige horários de aula diferenciados e organização de apoio. Exige flexibilidade para elaborar os horários de aula e criatividade para aproveitar os recursos existentes. O Hiram Trust, da Grã-Bretanha, prestou consultoria a escolas sobre como desenvolver seus recursos locais e integrá-los ao horário de aulas durante anos.

Um horário de aulas de trabalhos manuais integrado

O horário de aulas de trabalhos manuais tradicional tem de ser reavaliado no sentido de refletir a realidade da produção moderna, ao mesmo tempo em que temos que manter os elementos de aptidões manuais e educação estética cultivadas que são assuntos centrais do currículo. Não podemios seguir até a 12ª série na área dos trabalhos manuais tradicionais. Existe um movimento em desenvolvimento:

  • Recolher materiais naturais na natureza (p.ex. frutas, lã, folhas, capim, paus) para comê-los ou fabricar objetos com eles (p.ex. feltro, comida, esteiras e cestos simples).
  • Transformar materiais naturais (tecer lã, descascar e fabricar vime, entalhar madeira e produzir objetos de madeira verde etc.).
  • Cuidar de animais, jardinagem e cuidar de estábulos.
  • Trabalhos manuais com materiais e matérias-primas naturais e com materiais tratados (p.ex. marcenaria, cerâmica, corte e costura, tecelagem etc.).
  • Além disso, design e produção de mercadorias industrializadas, onde termina o setor escolar. É o momento onde o aprendizado ingressa no mundo do trabalho e da economia.

É mais ou menos nesta seqüência que o trabalho prático na escola poderia ser elaborado. Esse tipo de horário de aulas exigiria uma ordem escolar totalmente nova, que observaria a análise dos recursos naturais locais, desde os materiais até os recursos humanos do meio em que se inserem. Todas as séries escolares podem participar da fabricação, do tratamento e da produção. Os aspectos interdisciplinares desse currículo de integração seriam amplos. Seriam integrados não somente os trabalhos manuais, mas também a literatura, aritmética, geografia, ciências econômicas e arte.

Tradicionalmente, trabalhos manuais como marcenaria e jardinagem eram incluídas na 6ª série (na idade de 12 anos). Antigamente, algumas escolas fizeram ótimas experiências ao incluir essas matérias. A promoção da destreza manual pode, inclusive, combater os ‘dedos cegos’.

III. Recomendações específicas para o ensino médio

O encontro com o mundo real

Para que a base dos primeiros anos escolares e do ensino fundamental chegue ao ponto máximo, o ensino médio exige mudanças abrangentes. O encontro com o mundo real é importante para que se reconheça a necessidade de novos ideais.

A relação entre a escola e o mundo do trabalho e o ambiente fora da escola tem de ser repensada. É necessário criar e realizar tarefas autênticas em relação às reais necessidades. Como isso poderá ser feito ainda requer pesquisas

A experiências mostra (Fn) que a ocupação no mundo do trabalho desperta nos alunos a necessidade de desenvolver aptidões e técnicas melhores de aprendizado reflexivo para esclarecer o tipo de questão existencial inerente ao encontro com o mundo do trabalho. Para que essa necessidade seja suprida, as escolas têm de mudar, assim como mudam as empresas e vagas de trabalho que admitem estagiários.

A capacidade de refletir sobre e avaliar experiências passa a ser uma nova competência-chave. É necessário pesquisar mais para descobrir como alunos podem aprender técnicas de avaliação e aplicar essa retrospectiva de forma a saber quais os próximos passos a seguir. Os professores também têm de aprender isso.

Estudo individual

O horário de aulas tem de oferecer maior número de possibilidades de apoio ao estudo individual. Isso pressupõe uma revisão dos métodos de ensino (em toda a escola), cujo foco principal é o de fortalecer a atividade individual dentro de sua faixa etária. Isso inclui o cultivo do estudo autodirecionado e a auto-avaliação por meio da reflexão e comparação, assim como traçar objetivos individuais dentro de cada contexto de estudos, sempre observando a respectiva faixa etária.

Alunos do ensino médio devem encontrar situações onde possam descobrir, vivenciar e aprender processos de transformação. Uma capacidade-chave do futuro é saber propor mudanças, vivenciá-las e fazê-las, para si e para o meio em que estão inseridos.

Apoiar o aprendizado autodirecionado significa trazer diferenciações para dentro das classes e do processo de aprendizado. Além disso, inclui o trabalho com crianças de idades diferentes em grupos individuais (p.ex. alunos de séres diferentes e faixas etárias misturadas). Isso, por sua vez, levanta questões sobre o conteúdo de ensino específico para determinada idade e pressupõe maior flexibilidade do que era normal até então na pedagogia Waldorf. Há muitos pontos a favor do estudo contextual e experimental no sentido de ser mais eficiente na promoção da vontade individual.

Portfolios oferecem a possilibilidade de fazer com que o estudo individual passe a ser tarefa do estudante.

De modo geral, há maior necessidade de educação escolar interdisciplinar e prática.

Esse novo enfoque sobre o aprendizado “no mundo” não deveria surgir às custas de uma pedagogia artística, científica ou antroposófica. Esse novo elemento de educação deveria ser realmente fortalecido, o que só pode ser conseguido por meio do estudo interdisciplinar, efetivo e econômico. Existe uma necessidade real de mais treinamento e desenvolvimento pedagógico. As novas experiências, adquiridas por meio de aprendizado autêntico vivenciado, aumentam a necessidade de estudo interdisciplinar.

O desenvolvimento pessoal passa expressamente a ser uma parte importante do horário de aulas do ensino médio.

Exames como obstáculos

Um dos maiores obstáculos à preparação para a vida está nos atuais sistemas públicos de exames. Exames são obstáculos em muitos sentidos: tomam tempo precioso e criam um contexto de estudo artificial, estão totalmente fora da realidade não quantificada da vida real, porque os exames exigem uma padronização do resultado.

Cada país deveria trabalhar de acordo com o sistema de ensino existente para garantir as condições prévias necessárias à aceitação do programa Waldorf como preparação para o aperfeiçoamento e ensino superior. Seria útil para esse processo se existisse concordância internacional dentro do sistema Waldorf e os padrões de conclusão pudessem ser determinados.

Um sistema de créditos Waldorf

Para tanto, temos que desenvolver um conceito de avaliação processual que não seja apenas um exame final. Tal processo de avaliação deveria incluir tanto os critérios externos quanto os princípios pedagógicos antroposóficos. Nesse sentido, os relatórios escolares normais são quase sempre insuficientes. O trabalho feito nessa área deverá ser identificado, coordenado e realizado (e provavelmente também financiado) por meio do movimento internacional e cooperação Waldorf.

Novas competências dos professores

Os professores do ensino médio terão que desenvolver novas aptidões. O leque é grande, em analogia às aptidões-chave esperadas dos alunos e abrange desde os assuntos práticos e do dia-a-dia (competências TI) até a competência social superior. Os professores têm de estar atualizados quanto à experiência no mundo do trabalho moderno (tanto social como industrial) e ao conhecimento de suas matérias.

Os professores também têm de estar preparados e capazes para reter seu conhecimento no sentido de permitir aos alunos que façam suas próprias descobertas. Além disso, o professor tem de ser um transmissor do estudo, apto a preparar o aluno para o encontro com o seu meio e a acompanhá-lo durante esse encontro com o mundo, para que o verdadeiro contexto de vida seja acessível ao aluno. O mundo do trabalho exige a mesma consultoria pedagógica como o próprio aluno. Isso significa preparação e apoio assim como orientação posterior a respeito de retrospectiva e reflexão. Professores não somente têm de ter competência social como têm de ser capazes de criar situações onde a habilidade social pode ser aprendida.

Convite à resposta

O grupo Trabalhar e Estudar assim como a iniciativa pela pesquisa prática ipf esperam que esse relatório produza debates e discussões. Pretendemos convidar todos aqueles que se ocuparam com a documentação do projeto de pesquisa (três relatórios intermediários e a presente publicação) a participar de outros colóquios. Também estamos interessados em receber suas respostas e contribuições por escrito para incluí-las nos debates em curso e utilizá-las para preparar os planejados colóquios.

Em nome do grupo principal do projeto de pesquisa Trabalhar e Estudar e da ipf (iniciativa pela pesquisa prática)

Martyn Rawson

 

Sobre nós
Pedagogia
Agenda
Atividades
Vagas
Escolas afiliadas
Jurídico