home  local  mail

Aliança pela Infância junto com a Federação das Escolas Waldorf no Brasil e Instituto Sophia de Estudos Antroposóficos
realiza
mesa-redonda entre
três caminhos da educação da criança - 2008

Escola da Ponte, Construtivismo e Pedagogia Waldorf

expõem sua didática

e apontam que o caminho é de interação

A Aliança pela Infância reuniu numa mesa-redonda três renomados educadores. Entre eles, um convidado de honra: o professor José Pacheco, que transformou uma escola pública em Portugal, a Escola da Ponte, em uma referência de alfabetização e inclusão social. Após seu relato, a doutoranda Maria Alice Proença discorreu sobre o construtivismo na educação e a professora doutoranda da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Sueli Pecci Passerini, apresentou a Pedagogia Waldorf.

O encontro reuniu cem pessoas no último sábado de março, na sede da Umapaz (Universidade do Meio Ambiente e Cultura de Paz), no Parque Ibirapuera, a fim conhecerem melhor essas três pedagogias, que têm atraído milhares de pessoas nas últimas décadas. A abertura do evento ficou por conta da professora Maria Chantal Amarante, secretária do ensino infantil na Federação das Escolas Waldorf no Brasil. Como colaboradora da Aliança, ela apontou o papel da entidade, que “surgiu nos EUA, Europa e no mundo todo, a partir da união de médicos, pedagogos e terapeutas, preocupados com a infância, tendo a finalidade de trazer o que a aflige, propor soluções e caminhos”.

 Soluções pioneiras, responsáveis pela guinada de um caminho que parecia fadado ao abandono, foi o que se ouviu na voz do professor Pacheco. Uma delas, e talvez a mais inusitada, foi extinguir a prática de sala de aula para, nos últimos 32 anos, dar lugar a uma série de projetos com alunos do ensino fundamental da Escola da Ponte. A narração dessa empreitada começa com um cenário de tristeza e violência em 1976.

As lembranças do professor remetem-se às “turmas de lixo”. Assim eram chamadas as classes de uma escola sem portas, janelas e banheiros, tendo os alunos que fazer as necessidades no mato. “Alunos sujos, descalços, drogados, a maioria da quarta série sem saber ler nem escrever. Professores desmoralizados, mal pagos, feridos pelos alunos muitas vezes.” Diante da frustração, ele conta que pensou em mudar de profissão, porém, algumas perguntas o perseguiram e o fizeram mudar de idéia: Por que havia as chamadas turmas de lixo? Será que não temos uma prática de ensino deficiente? Foi procurado por duas professoras. “Os outros estavam mortos, morreram aos 20 anos e foram enterrados aos 60”, disse ele. E os três sintetizaram a pergunta inicial: Por que há turmas?

Não encontrando nos livros qualquer fundamento para a existência de turmas, derrubaram as paredes e reuniram, num só espaço imenso, todos os jovens de até 15 anos. E sempre com a pergunta: Por que eles não aprenderam a ler? Concluíram que a origem do problema estava em terem sido ensinados do mesmo modo. “É preciso dar muitas aulas para se perceber que não se deve dar aulas”, foi mais uma de suas frases contundentes.

A partir de então, aboliram a prática de professor por disciplina. E conta que os alunos que não tinham aprendido a ler em 7 anos aprenderam em 2 meses, porque os professores passaram a dirigir a cada aluno o que cada um precisava. Avesso a rótulos pedagógicos, diz que esse movimento lançou mão das idéias de inúmeros estudiosos, entre os quais citou vários expoentes brasileiros. “Estamos em tempo de unificar. Quando nos prendemos a apenas uma corrente somos fundamentalistas pedagógicos”.

Exames também não foram poupados nessa revolução. Foram abolidos. No entanto, o professor conta que os alunos tiveram que realizar há cinco anos uma prova do Estado e obtiveram sucesso. Para o professor Pacheco isso não importa. Ele destaca a cidadania conquistada, o ambiente de cooperação e autonomia, onde leva em conta o ritmo e o potencial de cada um. E, emenda, autonomia tem que ser com os outros, senão é narcisismo.

Paula Mourão, que trabalha junto a crianças com dificuldades de aprendizagem, visitou a escola em 2006 e ficou impressionada com o olhar brilhante, a fluência, e a saúde das crianças. “A escola está formando cidadãos inseridos na cultura, na atualidade, preparados para estar no mundo”. Ela também compareceu à Umapaz para mais um encontro com o mentor dessa realização.

Dirigida pelos pais, a escola acolhe hoje cerca de 250 alunos, entre 5 e 19 anos, que ali fazem os nove anos de ensino fundamental. Conquistou autonomia na escolha do corpo docente e autonomia financeira, embora receba recursos do Estado. De acordo com o professor, a renda advinda de trabalhos feitos pelos professores, como livros e palestras, é convertida inteiramente para a escola. O público assistiu ainda a um documentário, que mostra uma assembléia das crianças, o que faz parte da rotina. Ao final, como não poderia deixar de ser, o professor foi muito aplaudido.

 

Ação, brincar, busca, autonomia.

Quatro conceitos

à luz do construtivismo

 

A seguir, a professora Maria Alice Proença iniciou sua exposição agradecendo à educadora Ute Craemer, uma das fundadoras da Aliança pela Infância no Brasil, o convite de apresentar o construtivismo e sua relação com a educação. Como suporte, utilizou a projeção de obras de arte, associando-as a conceitos centrais da filosofia construtivista de Jean Piaget. A teoria desse biólogo, filósofo e psicólogo juntamente com a pesquisa de Lev Vygotsky fundamentam o construtivismo.

Uma questão norteou sua palestra: “Como podemos discutir os movimentos de aprendizagem, a relação entre ensinar e aprender, com o olhar onde cada um atua - a seu ritmo e a seu tempo - dentro de uma diversidade, que o professor Pacheco tão bem explorou na escola da Ponte?”

A professora explicou que na visão de Piaget, aprender é ressignificar, ou seja, dar novos significados a conhecimentos prévios, à medida que aparecem novos desafios e conflitos. Piaget coloca o tempo inteiro que as situações em sala de aula precisam de obstáculo. “Se entregarmos tudo pronto às crianças ou educadores, eles não terão condições de aprender e de ver o conhecimento de maneira diferenciada. Nesse espaço, não haverá o ressignificar, portanto, não haverá o processo da aprendizagem.”

Quatro conceitos da pedagogia construtivista foram abordados. Primeiro, a ação. O construtivismo de Piaget trata o conhecimento como uma construção, a partir da ação do sujeito, numa interação com o meio e o objeto do conhecimento. Para Piaget, a inteligência nasce da ação. Para a professora Maria Alice, a interação se faz com as trocas nas mais diferentes situações, no diálogo e no respeito às diferenças.

O brincar foi o próximo tema abordado. Partindo do princípio de que o espírito infantil é essencialmente dinâmico, ela apontou a importância de o educador criar situações que, através do brincar, propiciem ao sujeito se apropriar dos seus fazeres e saberes transformando-os em novos conhecimentos. Falou ser necessário socializar essas experiências, verbalizando-as em sala de aula.

 Sempre visando a construção do conhecimento, o terceiro conceito foi a constante investigação. “Devemos educar o olhar para ver o que está ao redor, fazer perguntas, registrar e interpretar”. Ter atenção aos gestos, aos desenhos, às conversas, de modo que o comentário de uma criança possa servir de desafio para o desenvolvimento cognitivo de outra. Todos os conteúdos devem mobilizar a criança e o educador em busca de alguma coisa, disse.

O conceito que mais caracteriza o pensamento piagetiano é o da autonomia, destacou. Aponta esse como um grande desafio aos que trabalham com educação, porque precisam aprender a se autogovernar e permitir que as crianças busquem o que elas devem conhecer. “Toda vez que fizer por uma criança aquilo que ela pode fazer sozinha estará privando-a de aprender”. Acredita ainda que as situações desafiadores em sala de aula fortalecem a enfrentar frustrações futuras do dia-a-dia.

Ao responder sobre educação intercultural, proposta pela filosofia construtivista, elogiou o trabalho realizado pelo orientando Edson da Silva, presente ao encontro. Na creche onde trabalha em Santo André, ele criou a oportunidade para que uma mãe poetisa recitasse para as crianças no intervalo, o que estimulou o engajamento de outros pais. Elogiou também uma creche do Taboão da Serra, que abriu espaço para o avô sanfoneiro de uma das crianças tocar, gerando a partir daí um rico trabalho de participação e valorização da cultura nordestina.

Merece destaque também a seguinte frase da professora Maria Alice: “Cabe aos educadores ouvir os brasileiros, nossas histórias, e perceber que essas vozes somadas vão trazer a consciência de que os nossos saberes também são de grande importância na nossa cultura. E, dentro desse espaço de interação, criar uma rede de pessoas compromissadas com a infância e com a própria formação”. Com aplausos, passou a palavra.

 

Uma visão profunda da palavra encontro

mostra que ele é a chave de tudo – Pedagogia Waldorf

 

A professora Sueli Pecci Passerini, fundadora do Colégio Waldorf Micael de São Paulo, onde lecionou por quinze anos, apresentou a pedagogia Waldorf seguindo uma vertente: encontros. Não apenas entre pessoas, mas numa dimensão mais profunda. Mestre em contos e mitos, narrou de início a fábula da cigarra e a formiga, relacionando a cigarra ao mundo de sonho em que vive a criança e apontando a formiga como a representação da sociedade que quer as coisas tradicionais, certas e seguras.

A fábula foi o descortinar de uma apresentação, que revelou uma série de outros encontros, visando sempre à criança. O primeiro deles aponta o educador como mediador, e ocorre entre o que ela chama de uma onda de integração com as inúmeras áreas do conhecimento, que é fragmentado. “Estamos num momento de integração da Pedagogia Waldorf, com a Escola da Ponte e o construtivismo de Piaget. Essa integração vem como uma onda para que os educadores tenham a possibilidade de fazer o melhor”. Mas lembra que a fragmentação continua sendo necessária. “Eu não poderia falar aqui sobre todas as perspectivas pedagógicas, se mal dou conta de falar de uma parcela da Pedagogia Waldorf”.

O segundo encontro que a professora destacou é do educador com a criança. “Um encontro sagrado de tempo e de almas”. O educador faz a mediação do conhecimento tradicional necessário com o que vem de novo a partir da criança e do conhecimento das novas tendências da sabedoria. “Se entre o educador e a criança conseguirmos criar um espaço para esse encontro, que é sagrado, já teremos feito muita coisa, porque nisso implica uma série de valores de respeito a essa criança, de conhecimento do seu desenvolvimento, seja em psicologia, sociologia, filosofia etc.” Explicou que nas escolas infantis Waldorf, as professoras pouco falam e mais agem. “Elas criam esse espaço do encontro, no qual o importante é ser e agir com a criança, porque explicação nessa idade não adianta”. Não deixou de mencionar também o respeito ao sono, fundamental nesta pedagogia, no entanto, sem poder aprofundar devido ao curto tempo.

O terceiro encontro é com o lúdico. Mais ligado ao sentimento do que à razão, é um princípio básico e constante da metodologia Waldorf. A professora o relacionou com o sonho e com a alma. “O lúdico é a dimensão do sentir no nível do sonho”. Na visão Waldorf, o sentir é uma das três capacidades que nascem e se desenvolvem na alma. Atua fortemente na região toráxica, das emoções. As outras duas capacidades são o pensar e o agir, que atuam respectivamente na cabeça, e nos membros e região abdominal.

A professora Sueli lembrou ainda que o sangue circula em forma de oito no peito. Portanto, esta é uma região central também sob esse aspecto. Igualmente aí, ocorre a intersecção entre a cabeça e os membros. De modo que o sentir é a mediação entre as duas capacidades polares. É o ponto de equilíbrio entre o pensar, a lógica, a razão, ou seja, a inteligência tanto concreta como a abstrata, e, por outro lado, a ação. Como nada é simples em educação, a professora Sueli trouxe a frase: “A complexidade do aprendizado é diretamente proporcional à complexidade da alma. A alma tem um desenvolvimento como o físico, a consciência e a inteligência do ser humano em formação”.

Tudo isso para explicar o lúdico. Mas não à toa, porque ele está presente em todos os cantos e momentos das salas de aula de uma escola Waldorf. Pode-se dizer que o lúdico é a alma da didática dessa pedagogia. Como muito bem apresentou a professora Sueli Pecci está nas cores que o professor usa na lousa, no fazer o pão, na música, na euritmia, nas histórias, no brincar etc, onde nenhum gesto, nenhuma cor, nenhuma palavra são aleatórias.

“Quando a gente faz teatro, dança, brinca, é uma construção que está ligada a esse encontro sagrado”. O encontro do educador com a criança pressupõe o encontro com ele mesmo. “Com sua criança interior”, disse a professora já no início da palestra, a qual finalizou com a máxima do pensador alemão Friedrich Schiller: “O homem joga, brinca, somente quando é homem no pleno sentido da palavra e também é homem quando joga ou brinca”. Em meio aos aplausos, após responderem às perguntas, os palestrantes ganharam o livro recém lançado pela Aliança. Mais encontros como esse estão agendados. Fiquem atentos.

Texto: Simoni Baliú Fiamenghi

 

Sobre nós
Pedagogia
Agenda
Atividades
Vagas
Escolas afiliadas
Jurídico