A assistência à pessoas debilitadas – carentes no sentido físico, psíquico ou até espiritual – passou ao longo da história da humanidade por muitas transformações, acompanhando a evolução da consciência.
Podemos, resumidamente, mostrar o seguinte quadro:
Na Antiguidade, e até nos dias de hoje em certos lugares distantes da civilização moderna, a assistência aos velhos, deficientes, doentes abandonados constituía responsabilidade da família, do clã ou da tribo. A miséria fazia parte do plano divino e, às vezes, era até considerada castigo dos deuses pela falha cometida pela própria pessoa, ou por seus pais.
Uma série de regras religiosas comandava as atitudes a serem observadas em relação aos destituídos. A idéia da prevenção, ou reabilitação era quase desconhecida apesar de, nos escritos de Aristóteles, ser encontrada uma referência sobre a necessidade de “ajudar os pobres dando-lhes o material necessário para que se tornem artesãos”.
Aos poucos a assistência passou a ser assumida pelas instituições religiosas. A Igreja Católica, por exemplo, criou os diáconos e as diaconisas que atuavam aliviando os flagelos da guerra, das invasões e epidemias. A Igreja manteve o privilégio de administrar as obras de caridade: hospitais, leprosários, orfanatos e dispensários ligados ao mosteiro.
A partir do Império Romano começa, aos poucos, um envolvimento do Estado embora de forma totalmente paternalista: distribuição de víveres e espetáculos. “Panem et circensem” para manter a paz interna...
Somente a partir do século XIX, com os problemas decorrentes da industrialização dentro do conceito de capitalismo selvagem, é que o Estado pressionado pelos movimentos dos trabalhadores assumiu um papel mais forte de assistência (leis trabalhistas, etc.).
A partir do século XX entra em cena outro tipo de instituição de auxilio aos carentes: entidades internacionais como UNESCO, FAO, OIT.
No final do século XX e século XXI surgiu no cenário uma terceira força, além da do Estado e da Igreja, que se preocupa com o bem estar social: a sociedade civil organizada em milhares de ONGs e entidades sociais espalhadas pelo mundo inteiro. Estas se fundamentam no idealismo de indivíduos que se juntam em comunidades sociais e terapêuticas diferenciadas.
A RESPONSIBILIDADE SOCIAL “aterrissou” na alma de milhares de pessoas: “Ninguém, no futuro, pode viver feliz se ao seu lado alguém passa necessidade” (Rudolf Steiner). O dualismo entre “quem tem” e “quem não têm”, entre quem ajuda e quem é ajudado, começa a diluir-se e nasce uma concepção mais monista: quem ajuda é ajudado. Todos precisam do outro para seu bem estar e desenvolvimento. Como disse Christopher Clouder da Alliance for Childhood: “Precisamos uns dos outros para nos tornarmos humanos e humanizar a Terra”.
Assim, a Assistência Social percorreu um caminho evolutivo de uma responsabilidade grupal (família, grupos religiosos, Estado) para uma responsabilidade de indivíduos que livremente se juntam em comunidade de terapia social.
A QUESTÃO SOCIAL COMO QUESTÃO PEDAGÓGICA
Vimos como na História da Humanidade nasceu, no século XX, e em CADA alma humana inconscientemente, a vontade social e também a necessidade desta vontade social tornar-se realidade, para assegurar a continuidade da Terra e de seus seres vivos.
É neste momento que surge com toda a seriedade e veemência a questão:
Como despertar esta vontade social nos seres humanos em formação para com que ela se torne consciente e, conseqüentemente, atuante?
“Como teremos de nos comportar diante das crianças se quisermos educá-las de tal maneira que – quando adultas – possam crescer no mais amplo sentido nos âmbitos social, democrático e liberal?” (R. Steiner)
Rudolf Steiner nos deu umas dicas fundamentais na compreensão da essência do ser humano.
Na palestra intitulada “Formação do Destino no Sono e na Vigília” (GA 224) ele expõe como a criança nos 3 primeiros anos de vida aprende a
Estes processos são guiados por seres espirituais elevados: é muito mais do que só um processo mecânico.
A fala carrega para fora do corpo o teor anímico-espiritual contido nas palavras, na linguagem. O aprendizado do falar é guiado pelo arcanjo ligado ao seu povo e à sua língua que recebe através do falar impulsos de amor... ou ódio.
O andar é o processo do ser humano colocar-se em equilíbrio entre a gravidade da terra e as alturas do céu, diferenciando assim os seus quatro membros:
- As mãos são liberadas para uma ação criativa. “Os braços e mãos tornam-se meios maravilhosos de expressão para a alma, e são portadores do seu trabalho no mundo” (Rudolf Steiner)
- o Eu, através dos membros, liga-se aos Arqueus que recebem o contentamento e descontentamento conforme nossas ações serem imbuídas de idealismo, ou não, de alinharem-se com o nosso destino Conforme Rudolf Steiner na sua palestra “Como atua o anjo no nosso corpo astral” recebemos inconscientemente três imagens, imbuindo-nos do que podemos chamar de amor universal a todo ser humano na estruturação do social:
- 1º ideal: Ninguém deve, no futuro, usufruir tranquilamente da própria felicidade se outros, a seu lado, estiverem infelizes.
- 2º ideal: Cada indivíduo pode ver futuramente, em qualquer outro ser humano, um aspecto divino oculto. O encontro de um homem com qualquer outro irá construir, por si só, um ato religioso, um sacramento.
- 3º ideal: Dar aos homens a possibilidade de alcançar o espírito através do pensar, isto é, a capacidade de transpor o abismo para chegar à vivência do espírito através do pensar.
Estas três imagens são ligadas à trimembração social, como descrita por Rudolf Steiner:
- A imagem da fraternidade na vida econômica, i.e. organizar a economia a partir do princípio de associações entre os que produzem e os que necessitam dos produtos.
- A imagem da igualdade, que inspira a vida dos direitos e das relações humanas, i.e. organizando comunidade e grupos incluindo todos, independentemente de sua produção “externa” e seu papel hierárquico, criando assim um organismo vivo com vários “órgãos”
- A imagem da liberdade da procura individual por caminhos espirituais, i.e. criando uma pluralidade de grupos e expressões culturais, educacionais, artísticas, etc.
Podemos achar aí as pistas para responder as perguntas de como educar os alunos para que cresçam na direção dos âmbitos do social (fraternidade na vida econômica), do democrático (igualdade na vida das relações) e do liberal (liberdade na vida cultural).
Temos à nossa volta seres que nos falam dos impulsos do futuro: as crianças. Basta decifrar as palavras e gestos verdadeiros, escondidos atrás daqueles influenciados por um ambiente violento.
Por exemplo: constata-se uma tendência de maior abertura para o diferente (2ª imagem), uma compaixão não sentimental para a miséria do próximo, às vezes em países distantes (1ª imagem), e uma tendência de descobrir o mundo através de seu próprio pensar e da sua própria vivência (3ª imagem). MAS as crianças e os jovens precisam de uma ajuda educacional para desvendar o que está nas profundezas de suas almas. Precisam de ajuda para conscientizar estes impulsos inconscientes para que os jovens possam atuar, agir e transformar o mundo respeitando a liberdade individual, aceitando o seu próximo em pé de igualdade, e atuando nos processos econômicos com fraternidade.
O currículo Waldorf, por si só, facilita este desvendar. Por outro lado devemos nos lembrar que os educadores são inseridos em seu ambiente social, na história de seus pais, e que isto é levado inconscientemente aos alunos.
Por isto, penso, que certos aspectos ligados, por exemplo, à época colonial da escravidão devem ser CONSCIENTEMENTE trabalhados para fomentar este amor universal a todo ser humano, ao qual Rudolf Steiner se referiu i.e. de transcender seu próprio meio ambiente para alcançar o universalismo almejado pelas hierarquias.